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Edson Nery da Fonseca - O eterno Mestre

"Eu não tenho sequer pós-graduação, não tenho mestrado, doutorado, tenho apenas um bacharelado em uma ciência que ninguém leva a sério chamada Biblioteconomia."

Biblioteconomia Social

"A interação entre a técnica e o social me fez conceber o que intitulo de Biblioteconomia Social..."

Shiyali Ramamrita Ranganathan

"A informação necessita encontrar todos os leitores e todos os leitores devem encontrar as informações."

Jean Piaget

"O ser humano é ativo na construção de seu conhecimento e não uma massa 'disforme' a ser moldada pelo professor."

Michel Foucault

"A prisão do jeito que é hoje, é inócua porque “se eu traí meu País, sou preso; se matei meu pai, sou preso; todos os delitos imagináveis são punidos de maneira mais uniforme. Tenho a impressão de ver um médico que, para todas as doenças, tem o mesmo remédio. E um remédio que não cura!”.

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30 de jun. de 2020

Livros além das grades: por que focar nas Bibliotecas Prisionais?


Entrevista com Lisa Krolak, do "Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida" da UNESCO

Sem dúvida, as prisões são alguns dos ambientes mais difíceis nos quais as bibliotecas podem ser encontradas, trabalhando com leitores que enfrentam problemas complexos. No entanto, ajudando a desenvolver novas habilidades e a preparar apenados para a vida do lado de fora, elas podem ter um grande impacto. Para descobrir mais, trazemos a entrevista feita com Lisa Krolak, bibliotecária-chefe do Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO na Alemanha.

Lisa é autora do livro "Books Beyond Bars: The transformative potential of prison libraries" (Livros Além das Grades: O potencial transformador das bibliotecas prisionais), lançado no Congresso Mundial da IFLA (WLIC) em 2019 na capital da Grécia, Atenas. 

Ela preside o Grupo de Trabalho da IFLA sobre Bibliotecas Prisionais, estabelecido sob a Seção de Serviços de Biblioteca para Pessoas com Necessidades Especiais (LSN). Para mais informações, você pode contatá-la diretamente.


1) Por que focar nas bibliotecas prisionais em particular?
De acordo com padrões internacionais, os presos têm o direito de acesso à educação e informação, incluindo serviços de bibliotecas de qualidade. No entanto, na realidade, a maioria das bibliotecas prisionais não possui recursos suficientes e trabalha isoladamente. A opinião pública geralmente não é a favor de tratar bem os prisioneiros e vê o encarceramento como punição ou dissuasão. No entanto, um dia, a maioria dos prisioneiros é libertada e deve ser do nosso interesse que eles possam viver vidas livres de crimes depois. É mais provável que os presos venham de grupos e comunidades pobres, discriminados e marginalizados, e é mais provável que tenham tido uma experiência educacional limitada ou inexistente do que o resto da sociedade. Muitos têm dificuldades em ler e escrever e provavelmente nunca ou raramente usaram uma biblioteca antes. Oferecer oportunidades educacionais, incluindo serviços de biblioteca de qualidade, é uma maneira de apoiar sua reabilitação.


2) Que diferença as bibliotecas prisionais podem fazer?
O acesso à educação e, mais especificamente, bibliotecas e materiais de leitura podem ajudar a quebrar o ciclo de desvantagens educacionais, pobreza, violência e crime. Além de apoiar a aprendizagem ao longo da vida e a oportunidade de melhorar os níveis educacionais, as bibliotecas prisionais podem fornecer serviços que ajudem os prisioneiros em suas vidas diárias e os auxiliem em planejar sua liberação. Fornecer materiais para a leitura de prazer e outras oportunidades de entretenimento é uma maneira construtiva de passar o tempo livre e pode ser um meio de distração e fuga das preocupações diárias. As bibliotecas prisionais também apoiam a coesão social, atuando como locais de encontro com um ambiente calmo, descontraído e seguro, além de espaços para leituras, debates e cultura. Além disso, há o potencial transformador de participar de atividades de alfabetização (como círculos de leitura ou oficinas de escrita criativa), que propiciam o pensamento crítico e permitem que os apenados reflitam sobre sua vida. Usar os serviços da biblioteca da prisão é uma das poucas oportunidades nas quais os presos têm autonomia e responsabilidade de fazer suas próprias escolhas, selecionando o que ler e como se informar.


3) Que fatores os impedem de conseguir isso?
Pouquíssimos países têm sistemas bem estabelecidos de bibliotecas prisionais administrados por bibliotecários profissionais. Na maioria dos lugares, elas são administradas por funcionários designados da prisão, com a ajuda de reclusos ou voluntários da comunidade que não receberam ou receberam pouco treinamento em biblioteconomia prisional.


4) Que escopo existe para a aprendizagem e o intercâmbio mútuos entre bibliotecários penitenciários e outros bibliotecários?
As bibliotecas prisionais fazem parte da comunidade mais ampla de bibliotecas. Idealmente, os presos devem receber os mesmos serviços de biblioteca que as pessoas que vivem fora da prisão. Existem sistemas em que as bibliotecas prisionais são ramificações da rede de bibliotecas públicas locais. Isso garante padrões profissionais e a chance de introduzir prisioneiros em um serviço público que, esperançosamente, eles continuarão usando quando forem libertos. Em outros países, o sistema de bibliotecas públicas fez um esforço organizado para modernizar as bibliotecas prisionais de acordo com seus padrões. De qualquer forma, bibliotecários públicos e prisionais devem se conectar e trabalhar juntos. Eles podem se reunir regularmente, compartilhar materiais e planejar atividades comuns, como leituras de autores dentro e fora das prisões. As bibliotecas prisionais também podem participar de atividades culturais da comunidade em geral, como noites de leitura ou eventos de leitura em voz alta, que podem servir como uma ponte perfeita entre os dois mundos.


5) Que medidas você planeja tomar para garantir que os tomadores de decisão compreendam o valor de bibliotecas prisionais eficazes? O que você espera que eles façam?
No meu Instituto, o Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO, publicaremos em março um resumo de políticas sobre bibliotecas prisionais destinadas a tomadores de decisão. Ele será distribuído no próximo Congresso do Crime da ONU em abril de 2020, alcançando autoridades penitenciárias de todo o mundo. Este mês, meu livro sobre bibliotecas prisionais foi publicado em alemão. Enviaremos para todas as prisões de língua alemã na Alemanha, Áustria e Suíça. Duas cópias cada, uma para a administração penitenciária e uma para o serviço de biblioteca da prisão. Além disso, forneceremos a todos os ministros federais alemães e senadores da Justiça uma cópia gratuita.
Para enfatizar ainda mais o potencial transformador das bibliotecas prisionais precisamos realizar e coletar mais pesquisas sobre os benefícios e os impactos das bibliotecas prisionais e encontrar maneiras de compartilhar essas descobertas com os tomadores de decisão. Os documentos de políticas internacionais já pedem o estabelecimento de bibliotecas prisionais, mas não fornecem diretrizes ou padrões de qualidade, particularmente sobre financiamento. Os tomadores de decisão podem ter a melhor intenção e consultar as políticas mais bem escritas, mas se no final do dia eles não fornecerem orçamento suficiente para materiais, atividades e treinamento contínuo para os funcionários da biblioteca da prisão, o serviço da biblioteca simplesmente não alcançará seu potencial.


6) Como você planeja levar esse trabalho adiante na IFLA?
No Congresso Mundial da IFLA em Atenas, em agosto de 2019, iniciamos um Grupo de Trabalho sobre Bibliotecas Prisionais. No momento, compreendemos cerca de 40 bibliotecários penitenciários e bibliotecários públicos, acadêmicos e pessoas que trabalham em organizações da sociedade civil com foco em apoiar as bibliotecas penitenciárias. O grupo já forneceu informações valiosas para o as políticas acima mencionadas para as bibliotecas prisionais. Em uma próxima etapa preencheremos a página do projeto recém-criado das bibliotecas prisionais, localizado no site da Seção da IFLA sobre Serviços de Biblioteca para Pessoas com Necessidades Especiais (LSN), com informações relevantes.
No início do verão, começaremos a atualizar e revisar as Diretrizes da IFLA para a prestação de serviços de biblioteca para apenados, pois as atuais diretrizes datam de 2005. As novas Diretrizes serão apresentadas em uma sessão sobre bibliotecas prisionais, que ocorrerá no Congresso Mundial da IFLA em Roterdã em agosto de 2021, onde esperamos também poder visitar uma biblioteca prisional.



A maioria das bibliotecas prisionais enfrentam desafios significativos. Elas geralmente são insuficientemente financiadas, não são muito atraentes e estão localizadas em locais inadequados e inacessíveis. Além disso, elas geralmente precisam contar com materiais doados e frequentemente desatualizados que não refletem os interesses, níveis de leitura, habilidades linguísticas ou necessidades da população carcerária. Em muitas bibliotecas prisionais um foco especial deve ser dado aos prisioneiros com baixos níveis de alfabetização e com formação em idiomas não nativos. Isso pode ser feito fornecendo materiais fácil leitura e em vários idiomas, mas esses materiais específicos não estarão disponíveis em muitas bibliotecas prisionais.

Entrevista originalmente feita pela IFLA (Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias). 
Tradução: Anderson Santana, Bibliotecário, Chefe Técnico do Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP). 

5 de mai. de 2020

Primeiro Doutorado sobre Bibliotecas Prisionais


No Brasil, a criação de Bibliotecas Prisionais é legitimada por meio da Lei de Execuções Penais (LEP – Lei Federal nº 7.210 de 11 de Julho de 1984) que diz em seu art. 21, Capítulo V, que: 

“Cada estabelecimento penal deve ser dotado de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos”. 

Quatro anos mais tarde, o direito a informação é assegurado a todo e qualquer cidadão, conforme a Constituição Brasileira de 1988, prescrito no Artigo 5º, inciso XIV, o que solidifica ainda mais a LEP das Bibliotecas Prisionais, corroborando para que todo o individuo brasileiro, inclusive os encarcerados, tenham acesso à informação.

Passadas mais de três décadas, em 2017, a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB) deu voz e representatividade para as unidades de informação no cárcere, ao montar a primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP). Foram trinta e três anos de negligenciamento biblioteconômico e, não obstante ao descaso do governo, apenas agora temos a primeira Tese, no Brasil, sobre a temática.

O Doutor - Ciro Monteiro é Agente Penitenciário, foi Diretor substituto do setor educacional do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Jardinópolis (SP); Formado em História (UNESP), Biblioteconomia (USP), Mestre em Ciência da Informação (UNESP) e Doutor em Ciência da Informação (UNESP). Ele também faz parte da CBBP, convite que lhe foi feito ainda dentro do “Primeiro Fórum Brasileiro de Bibliotecas Prisionais”, ano passado. Sua linha de pesquisa partiu da sua própria experiência com os livros e a leitura intramuros das prisões e abarcou justamente os espaços de leitura na prisão. A Tese foi defendida no final do ano passado, 19 de novembro. Segundo o próprio Ciro, é preciso refletir sobre as possibilidades de atuação do bibliotecário no interior do cárcere. 

E ele conta um pouco se sua trajetória: 

Fui funcionário da prisão por 10 anos, atuando diariamente como mediador de leitura, estruturação de bibliotecas e projetos de incentivo à leitura e produção do conhecimento. A prisão é também nosso espaço de atuação. Deixo um trechinho do meu diário de campo para despertar curiosidade em vocês:

"Hoje algo que emociona qualquer pessoa vinculada à ideia de educação como forma de transformação da humanidade, tomou conta do meu ser. Era final do dia e ainda faltava coletar assinatura dos presos em documento que autorizava o setor de educação a publicar suas poesias para o evento Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, o qual a unidade foi convidada a participar e levar a produção de poesia dos educandos feitas por meio do projeto Rompendo as grades com poesia”. 


A ideia, discorre Ciro, era fazer um varal de poesia com as melhores poesias que foram depositadas na “caixa de poesia” para serem expostas no evento. 

"Fui até o pavilhão onde estavam todos os presos soltos e falei o nome de quais educandos tiveram a poesia selecionada. A reação foi impressionante. O caminho do educando até chegar para assinar o documento que estava em minha mão na porta do pavilhão, lembrava a passagem de um astro de futebol. Os demais reclusos gritavam, batiam palmas e passavam a mão na cabeça do contemplado. Toda essa glória por conta da produção de conhecimento é o que mais satisfaz o coração de um educador". 



Atualmente, Ciro é coordenador da  Biblioteca Pública Sinhá Junqueira, de Ribeirão Preto (SP. Ele pediu exoneração do Sistema Penitenciário para se voltar exclusivamente nos fazeres bibliotecários dedicados ao social, com atividade totalmente inclusivas. "Aqui fizemos chá das pretas, rodas de preconceitos na literatura e conferência sobre pessoas com deficiência...", relata Ciro. 


Em março deste ano, Ciro organizou um evento em comemoração ao dia do bibliotecário, 12 de março: "Livro, Leitura e Biblioteca na Prisão". Levou para ministrar fala, um egresso do sistema prisional e o atual monitor (reeducando) da sala de leitura do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Jardinópolis (SP), Florindo Cassimiro Junior. 

Florindo Cassimiro Junior

"Ele é um monitor excelente, que faz um ótimo trabalho", afirma Ciro, acrescentando que o reeducando atualmente cursa graduação de Biblioteconomia (secundarista) na modalidade Ensino a Distância (EAD).

Para grande parte dos bibliotecários, a Biblioteconomia Social é redundância, afinal, a Biblioteconomia por si só é social. No entanto, embora tenha nascido completamente humanista e com viés erudito, pós o tecnicismo Deweyniano, que visava apenas a organização das obras do conhecimento, nós perdemos a nossa nascente, para não dizer a identidade. Simplificando, no sentido figurado, seria como alguém dizer seu nome sem citar o sobrenome. Ora, quantas pessoas de mesmo nome têm por aí? Então é necessário inserir o sobrenome, para então dar a origem evolutiva de nossa história. Da mesma forma acontece com a Biblioteconomia. Atribuindo o “Social”, conotamos a essência, almejando exclusivamente mostrar que a técnica bibliotecária não pode ser avessa ao social e sim parceira, andando lado a lado. Não exercemos, em tese, nossa aplicabilidade bibliotecária para os pares e sim para o leitor. Eis a base da Biblioteconomia Social: um fazer bibliotecário voltado ao povo e pelo povo, principalmente aos excluídos da sociedade, às comunidades em vulnerabilidade social. E este é o trabalho do Ciro Monteiro que nos enche tanto de orgulho e admiração.

E sim, a representatividade das Bibliotecas Prisionais tem um "Doutô SimSenhô ". Orgulho define. Inspiremo-nos! 

Apenados utilizando a Biblioteca Prisional



8 de mai. de 2019

Universidade Federal do Sergipe (UFS) e as Bibliotecas Prisionais




Na condição de Presidente da Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), fui convidada a ministrar palestra dentro das comemorações de 10 anos do Centro Acadêmico de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal do Sergipe. A Febab, que faz o "Advocacy da Agenda 2030" no Brasil, oportunizou minha ida para Aracaju e, assim, realizamos também um #EsquentaCBBD2019.


O evento foi realizado no auditório da Biblioteca Central (BICEN), contando com a presença de alunos, professores, bibliotecários e Associação de Bibliotecários do Sergipe. Além de discorrer sobre minha experiência em Biblioteconomia Social, a ocasião serviu para explanar sobre a importância do movimento associativo para implementação da  "Agenda 2030", cuja a premissa consiste em "não deixar ninguém para trás". 





Na ocasião, também estive visitando o Presídio Feminino de Sergipe (PREFEM) na intenção de conhecer a Biblioteca Prisional que foi implantada na referida instituição a partir de uma ação em conjunto da bibliotecária Rachel Gonçalves sob a supervisão de sua orientadora do Mestrado, Germana Gonçalves De Araújo. A iniciativa nasceu, justamente, pós uma ação do Curso de Biblioteconomia, ao oportunizar uma videoconferência sobre Biblioteca Prisional, ano passado. 






O PREFEM tem capacidade para 175 detentas, porém abriga 240, cada qual com suas histórias, sonhos e esperanças. Mas nos caminhos da rotina intramuros do cárcere, do presídio feminino, está a UFS com sua graduação – Biblioteconomia – e pós-graduação – Gestão da Informação e do Conhecimento. 





A UNIVERSIDADE 

Fiquei maravilhada com a ação da Universidade dentro da instituição penal, bem como com a excelência do ensino, pesquisa e extensão da UFS, além de suas pós-graduações. Vale ressaltar que a universidade nunca esteve envolvida em “caixa dois” e é responsável por pesquisas na prevenção e tratamento de doenças como a chikungunya e zika vírus, bem como o atendimento de saúde integral de crianças portadoras de microcefalia são realizados em nossos hospitais universitários. A UFS é a única instituição de ensino do estado que conta com dois hospitais universitários, os quais atendem exclusivamente por meio do SUS. 

VISITA E INTERAÇÃO COM AS PRESAS 

Emoção, não há outra palavra para descrever a manhã que passei com as mulheres encarceradas. As lágrimas insistiram em cair, mas tomadas pela comoção de ouvir e contar histórias de vida tão peculiares, tanto minha quanto delas. Infelizmente, no Brasil, de cada 10 mulheres presas, apenas uma recebe a visita de seu companheiro e a maioria acaba indo parar atrás das grades justamente por serem aliciadas por eles em seus crimes, geralmente o tráfico de drogas. 


"Você vai querer ser lembrado como um grande revolucionário do seu tempo ou deseja ser apenas mais um na multidão?" (C.DC, reclusa)










O LOCAL

Chamou-me atenção o aspecto do espaço prisional: limpo, arejado, com arte de grafite pelas paredes e muros, aliás, mais uma ação de alunos do curso de Artes da UFS. Considerando os tantos estabelecimentos penais, aos quais já visitei, posso lhes dizer que, embora o cárcere nunca seja aprazível, por lá encontrei dignidade, respeito e, acima de tudo, o cumprimento da premissa “reeducar” para com as apenadas. 


Registro o meu muito obrigada a direção da unidade prisional,  na pessoa da Andréa Andrade, por nos receber e pelo lindo trabalho que realiza com as internas, acreditando que somente a Educação, de fato e verdade, é capaz de combater a criminalidade. 



BIBLIOTECA PRISIONAL 

Embora sendo rogadas como presença obrigatória no cárcere (LEP 7.210 de 1984), as Bibliotecas Prisionais ainda beiram a margem do descaso, tomadas como mero assistencialismo e sem a execução legal que lhes legitima. No estado do Sergipe, dos 8 estabelecimentos penais, apenas 4 são dotados de biblioteca. 



No PREFEM, a Biblioteca Prisional funciona atendendo todas as reclusas, sob os cuidados de uma delas, C.D.C, e na responsabilidade da Bibliotecária Raquel, discente de Mestrado, e alunos do curso de Biblioteconomia da UFS. Não existe fomento governamental dentro da ação, todo o trabalho do grupo universitário é feito de modo voluntário e até os gastos de locomoção para chegar até o presídio é por conta dos mesmos. Eis a essência da Biblioteconomia Social: doação em prol do livro e da leitura. 


 CBBD & PRIMEIRO FÓRUM BRASILEIRO DE BIBLIOTECAS PRISIONAIS

Este ano teremos, de modo inédito no Brasil e na América Latina, o “Primeiro Fórum Brasileiro de Bibliotecas Prisionais”, uma realização da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (FEBAB), dentro do “Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação (CBBD). O tema do evento será “Desigualdade e Democracia: qual é o papel das bibliotecas?”. A CBBP abordará, dentro do Fórum, um debate reflexivo, parafraseando o tema do CBBD: “Punir e Reeducar: qual é o papel das Bibliotecas Prisionais?.”




 A CARTA

Recebi de uma interna uma carta que muito deixou-me comovida, não apenas pelo gesto, mas por suas palavras, dentro de um recomeçar querendo fazer a diferença, buscando nos livros as novas oportunidades e fazendo da Biblioteca Prisional o seu laboratório de sonhos para uma vida extramuros do cárcere.


Encerro minha passagem pelo Sergipe com os meus mais sinceros agradecimentos a UFS, não apenas por seu acolhimento e receptividade, mas principalmente pelo zelo com que trata a formação e capacitação de seus alunos, primando acima de tudo pelo “humanismo” e envergadura social na luta por um país mais justo e digno de seus brasileiros. 

7 de nov. de 2017

Depoimento: A rotina de um bibliotecário prisional americano

Por Andrew Hart, Ohio (EUA)

Andrew Hart, Bibliotecário
Quando alguém menciona algo relacionado a uma biblioteca da prisão, alguns podem imaginar uma sala pequena e escura dentro das entranhas do cárcere e ter até a visão de um bibliotecário cansado, trabalhando entre material antigo e desatualizado, apenados que se arrastam entre as obras das estantes, guardas que alertam para qualquer sinal de problema. Pelo menos, foi assim que imaginei uma biblioteca prisional. Mas isso foi antes de trabalhar em uma por dois anos.

Eu diria a qualquer um que ser bibliotecário da prisão é a atuação de bibliotecário mais difícil, mais gratificante, mais triste, mais feliz, desafiadora, visionária, frustrante e interessante. Eu diria a mim mesmo: "Se você pode sobreviver a esta biblioteca, você pode sobreviver a qualquer biblioteca". As bibliotecas prisionais vêm com uma parcela apertada de desafios, mas, por outro lado, apresentam oportunidades que não são encontradas em nenhum outro lugar na profissão de bibliotecário. A missão de uma biblioteca da prisão é fornecer recursos educacionais e recreativos aos presos. Isso pode assumir a forma de livros, jornais, revistas, filmes e programação de bibliotecas. A esperança é que isso ajude no processo de reabilitação e, o mais importante, fornecer um meio de subterfúgio e distração para que os internos permaneçam sem problemas. Cabeça vazia e mãos soltas é oficina do diabo na prisão.

Um dia normal na biblioteca prisional consistia nos seguintes afazeres: abrir e fechar a biblioteca várias vezes durante o dia enquanto supervisionava cerca de quinze apenados trabalhadores da biblioteca; pedidos, recebimentos e inventários; respondendo cartas dos presos à biblioteca; segregação de visitas; encomendas de periódicos e livros de direito; selecionar doações de livros; esvaziar caixas de empréstimos de livros; responder perguntas de referência; prestação de relatórios; solução de problemas de TI; criação de programação mensal e etc. Como vocês podem ver, esta é uma agenda bastante atribulada e é típica para a maioria dos bibliotecários prisionais. 

Talvez um dos maiores obstáculos para um bibliotecário prisional seja a verba pública para a mesma. Na maioria das vezes, a biblioteca da prisão não faz parte das prioridades governamentais e é negligenciada. As doações de livros são a alma de uma biblioteca prisional. Uma parceria com editoras é uma ótima maneira para uma biblioteca prisional obter livros e substituir o material desatualizado que obstrua as prateleiras. Quando recebia delas as doações de livros, era como manhã de Natal na biblioteca. Os presos apreciavam meus esforços na tentativa de fornecer material novo e a administração prisional gostava das doações porque economizavam dinheiro. Manter obras atuais e novas melhora a imagem da biblioteca para os presos e a torna convidativa.

Na prisão há um lema: "A segurança é priori." Antes de trabalhar em uma, eu tive que me capacitar em como lidar com situações e pessoas dentro do contexto de segurança prisional. O aspecto mais dramático do meu trabalho foi monitorar os internos que visitavam a biblioteca e, ao mesmo tempo, responder perguntas de referência, realizar pesquisas legais e auxiliar os clientes (eu sempre me referi aos internos como clientes quando na biblioteca da prisão). Aprendi a olhar os dois lados ao mesmo tempo e a ser observador de tudo em minha volta. De vez em quando eu parava um agente penitenciário e pedia explicações sobre como identificar uma pessoa suspeita, por exemplo. Em certas ocasiões eu tinha que levantar a voz e outras eu tive que esvaziar toda a biblioteca devido ao mau comportamento.

As oportunidades criativas são abundantes em uma biblioteca da prisão. Workshops, clubes de livros e projetos de serviços comunitários são bem-vindos e necessários. Uma das melhores coisas sobre o meu trabalho foi o prazer imediato que experimentei quando ajudei um preso a encontrar as informações de que precisava ou quando os internos se aproximaram de um workshop e me diziam ter aprendido algo novo naquele dia. Fornecer serviços educacionais, criativos e significativos é primordial. Meu objetivo era encontrar soluções baratas, que incluíam a criação de slideshows e folhetos sobre uma variedade de tópicos, incluindo genealogia, direitos autorais / escrita e astrobiologia - uma recente área de pesquisa científica que busca compreender a origem, evolução, futuro e distribuição da vida na Terra e no Universo (o meu favorito). Eu também supervisionei um programa de serviço comunitário em que os internos receberam certificados para escreverem cartas de encorajamento aos soldados na guerra. 

Os serviços oferecidos pela biblioteca da prisão podem parecer insignificantes, no entanto, em sua maior parte, os internos buscam frequentar a biblioteca na intenção de sair de suas celas e experimentar mudanças na paisagem local. A biblioteca fornece um espaço de encontro para os presos conversarem e conhecerem aqueles que compartilham de interesses comuns. Não era raro que os apenados me explicassem suas histórias de vida; como chegaram à sua situação atual e suas esperanças para o futuro. Naqueles tempos, eu oferecia dicas de livros que correspondiam à sua situação e circunstâncias da vida.

Durante os deveres diários de um bibliotecário prisional, está a seleção de obras para empréstimos aos presos, contudo, vários títulos não são permitidos por uma questão de política institucional. A censura é uma dura realidade para os bibliotecários prisionais e contra a própria ética da nossa profissão. No entanto, a segurança é primordial e, na prisão, alguns direitos foram despojados, incluindo o direito a determinadas obras. 

Se você tem interesse em alguma parceria com a biblioteca prisional de sua cidade, não tenha medo de buscar isso e oferecer assistência. Acreditem em mim, os bibliotecários da prisão recebem toda e qualquer ajuda que possam obter. As bibliotecas prisionais não são masmorras como eu descrevi no início do artigo, mas lugares de aprendizagem, recreação e reabilitação. Um livro pode literalmente mudar uma vida na prisão, eu já constatei isso! Considere a parceria com o sistema prisional do seu estado e ajude a mudar o mundo aqui fora mudando vidas lá dentro.

Aqui estão algumas observações  feitas na biblioteca prisional: 

Autores populares: James Patterson, Louis L'Amour, Patricia Cornwell, JK Rowling, David Baldacci, William Johnstone, Jim Butcher, Stephen King, Dan Brown, Dean Koontz.

Tópicos Populares: Qualquer coisa do Naruto, administração de empresas, autoajuda, cozinha, crochê, línguas, super-heróis.

Pergunta mais comum: "Você pode me ajudar a obter uma estratégia de negócios?"

Pergunta de referência mais inusitada: "Qual é o tempo de gestação para um ratinho de estimação?"

Momento favorito: a hora de recitar poesia na biblioteca.

Pedido de obra mais estranha: um livro sobre agricultura de enguias.

Inesperado: Os presos roubando canetas, embora estivessem amarradas à mesa. 







23 de out. de 2017

Ex-presidiário ministra palestra ao lado de professor universitário no maior e mais importante congresso da área de Biblioteconomia

Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação – Itamar chega nervoso, pergunta se pode mesmo falar sobre sua história, da trajetória que o levou do submundo criminoso às salas de aula na condição de professor. Eu apenas disse a ele: “Seja você mesmo, esqueça a cientificidade e mostre que os livros atrás das grades podem sim fazer a diferença”

Itamar Xavier de Camargo
Ele começou sua fala e eu assumo, chorei copiosamente, afinal, em cada descrição de sua história, vinha à mente os tantos “Itamares” que temos nas prisões brasileiras, impossível não lembrar o meu trabalho a frente da biblioteca prisional e naquele palco pensar: “Sim, chegamos ao principal evento da Biblioteconomia, dos bibliotecários e das bibliotecas. Já não somos invisíveis ou negligenciados”.

O Itamar Xavier de Camargo dedica sua vida a fazer com que as pessoas tenham acesso à cultura, arte e informação. Ele, melhor do que ninguém sabe da importância que isso tem na vida de cada um, pois trilhou um árduo caminho, da infância pobre na periferia de São Paulo, passando pela violência, crime e depois o cárcere, até se tornar um semeador de livros e formar bibliotecas comunitárias em áreas carentes de Presidente Prudente. Sua trajetória de vida é um exemplo do poder de transformação pelo conhecimento e da determinação de um homem e sua luta na busca de sair de uma situação sem qualquer perspectiva de futuro. Quer saber mais sobre o Itamar? Leia seu livro “A Verdade que Liberta”


Professor Jonathas Carvalho
Logo após a emocionada fala de Itamar, tivemos o professor Jonathas Carvalho, do curso de biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Mestre e Doutor em Ciência da Informação que há anos vem debatendo a questão da importância das Bibliotecas Prisionais e buscando inseri-las também dentro da formação do futuro bibliotecário. De acordo com o professor Jonathas:

“Mais do que uma ampliação de mercado, o reconhecimento da atuação pedagógica da Biblioteconomia em presídios é uma expressão altiva e ativa do trabalho social da área do conhecimento em questão”. 
Leia na íntegra um artigo completo do professor sobre o tema. 

Jonathas encerra sua palestra chamando a academia de Biblioteconomia para o engajamento desta pauta, ressaltando que as Bibliotecas Prisionais são tão bibliotecas quanto as bibliotecas escolares ou universitárias, por exemplo. Bem, pessoalmente sou suspeita para falar deste Mestre, uma vez usei inúmeras falas dele em vários de meus projetos de Biblioteconomia Social e em especial nas bibliotecas prisionais. Tê-lo junto do Itamar, criador e criação, foi realmente emoção que palavras não descrevem. 

Workshop

Workshop
Num segundo momento, aconteceu outra reflexão sobre o assunto, com a presença do Itamar e da Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), dentro do “Workshop” que discutia o papel das Bibliotecas Prisionais: utopia ou realidade dentro do cenário brasileiro? 

Com a participação de bibliotecários, professores e estudantes de Biblioteconomia. Deparamo-nos com relatos maravilhosos de pessoas engajadas em projetos dentro do sistema penal, bibliotecas e pesquisas, além da participação de profissionais de outras áreas, como foi o caso dos Assistentes Sociais e Pedagogos. Sabemos que não é utopia, no entanto, ainda longe de ser uma realidade nacional. 

Cleide Fernandes (SNBP/MG); Catia Lindemann (Presidente da CBBP);
Guilherme Relvas (DLLLB); Renata Costa (SNBP/RJ)
Assim, aos poucos, vamos ganhando força e formando parcerias para que, de fato, as unidades de informação no cárcere possam ser aplicabilidade e não tão somente lei no papel. Para tal, ainda no CBBD, realizamos diálogo e obtivemos o apoio do atual Diretor do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) do Ministério da Cultura (MinC), Guilherme Relvas. Do mesmo modo aconteceu com o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Rio de Janeiro, sob coordenação de Renata Costa, que já efetua projetos de remição da pena por meio da leitura nas penitenciárias do Estado do Rio e atua diretamente na supervisão das bibliotecas prisionais do RJ. Por fim e não menos valiosa, obtivemos outra ponte, desta vez no Estado de Minas Gerais. Trata-se da bibliotecária Cleide Fernandes, diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais de MG.

Foi assim que as bibliotecas prisionais  ganharam espaço neste que é o principal evento da área de Biblioteconomia. Pela primeira vez na história, em décadas de realização, tivemos os livros na rotina intramuros das prisões como pauta de discussão. Em suma, comprovamos que 2017 foi literalmente o ano de “renascimento” das Bibliotecas Prisionais. Digo renascer porque em verdade elas já completaram 33 anos, mas apenas agora se tornaram visíveis e foco de atenção, tanto da academia quanto da sociedade – neste caso de modo mais módico e discreto. Mas seguimos nossa luta pelas Bibliotecas Prisionais, agora mais
fortalecidos, bradando que as mesmas não são assistencialismo, mas prerrogativa prevista em lei.

Carlos Wellington (CBBP/MA); Adriana Ferrari (Presidente da FEBAB);
Catia Lindemann (CBBP/RS)
Fica nossa gratidão a  Adriana Ferrari, presidente da Federação Brasileira das Associações de Bibliotecários (FEBAB), entidade que além de ser a responsável pelo CBBD, também montou a primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), oportunizando representatividade para que estas pudessem verdadeiramente ter voz e inserção dentro da área de Biblioteconomia e no país como um todo. Agora é respirar e seguir em frente porque a luta continua. Inspiremo-nos!

25 de mar. de 2017

Lançada a Primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais - CBBP

No Brasil, a criação de bibliotecas prisionais é legitimada por meio da Lei de Execuções Penais (LEP – Lei Federal nº 7.210 de 11 de Julho de 1984) que diz em seu art. 21, Capítulo V, que: “Cada estabelecimento penal deve ser dotado de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos”.


Apenados Lendo na Biblioteca Prisional/Fonte: Arquivo Pessoal/Catia Lindemann

Preocupada com a ausência de debates e reflexões concernentes à temática das bibliotecas prisionais e tendo como respaldo a relevância pertinente que envolve as unidades de informação presentes no cárcere, a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB) reuniu profissionais bibliotecários com atuação em instituições penais brasileiras para formar Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), respeitando os critérios de envolvimento, comprometimento e acima de tudo atuação dentro das bibliotecas prisionais. Neste sentido, a formação inicial conta então com a presença dos bibliotecários Catia Lindemann (como Presidente da Comissão), Carlos Wellington Martins, Cristiane Garcia, Daniella Pizarro e a representante Discente de Biblioteconomia Flávia Petterson

A iniciativa nasceu da Presidente da FEBAB, Adriana Ferrari, bibliotecária com vários projetos aplicados no cárcere, buscando sempre levar a informação para os intramuros prisionais. Adriana explica:

Fonte: Arquivo Pessoal/Adriana Ferrai
"Esta comissão nasceu da premente necessidade de discutir e informar mais sobre o tema aos bibliotecários 
e equipes de bibliotecas. 
É um assunto importante para a FEBAB e temos a certeza de que podemos contribuir e enriquecer debates e ações 
dentro de tudo que envolve as 
Bibliotecas Prisionais."

A Presidente da FEBAB também esclarece que o objetivo geral desta empreitada será "Promover as bibliotecas e a presença do bibliotecário nas unidades penais, a fim de assegurar o direito à educação e ao desenvolvimento humano dos apenados, respeitando e fazendo cumprir a legislação vigente no país."

MISSÃO 
Segundo a CBBP, a intenção é:

Dar ao Brasil uma representatividade oficial no que tange as bibliotecas prisionais, por meio da disponibilização de fontes de informação concernentes a temática das bibliotecas de estabelecimentos penitenciários,  alinhando as diretrizes já existentes no âmbito da biblioteconomia com a legislação vigente no país. 

O Manifesto da IFLA/UNESCO[1] sobre bibliotecas públicas 1994 entende que o acesso à informação é fundamental para o desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade como um todo. Neste sentido, encoraja as autoridades nacionais e locais a comprometerem-se no desenvolvimento das bibliotecas públicas, que devem oferecer serviços para todos, sem distinção de idade, cor, raça, religião ou condição social, inclusive pessoas privadas de liberdade. Ao final, o Manifesto faz um convite à comunidade de bibliotecários para que seus princípios sejam implementados. Considerando as discursões atuais sobre as bibliotecas de estabelecimentos penitenciários, bem como a possibilidade de remição da pena através da leitura, ao criar a Comissão Brasileira deBibliotecas Prisionais, a FEBAB busca cumprir com os princípios estabelecidos no Manifesto.

A intenção da Comissão é seguir em sintonia com a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA), que através da publicação “Ferramenta para o planejamento, implementação e avaliação de serviços de biblioteca prisional[2]” estabelece diretrizes que orientam e amparam os bibliotecários inseridos neste contexto em tudo o que se refere a estas unidades de informação. Cabe ressaltar que tais diretrizes foram reconhecidas e corroboradas pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). A IFLA recomenda que as mesmas sejam aplicadas em países onde exista a obrigatoriedade de biblioteca no cárcere, no entanto, observa que países em que exista uma Federação de Biblioteconomia, como é o caso do Brasil, esta pode subsidiar suas próprias diretrizes ou ainda, adotar e incrementar as já existentes. Do mesmo modo, a Associação Americana de Bibliotecas (ALA), também mantem uma comissão[3] destinada a todos os assuntos que envolvem bibliotecas prisionais, apresentando suas próprias diretrizes através das publicações "Library Standards for adult correctional institutions” e “Library Standards for Juvenile Correctional Facilities[4]”; além oferecer capacitação aos profissionais da informação (bibliotecários) para que possam atuar nas bibliotecas intramuros do cárcere, uma vez que estas possuem suas especificidades únicas.
Leia mais sobre... 

[1] Manifesto da IFLA/UNESCO (http://www.ifla.org/files/assets/public-libraries/publications/PL-manifesto/pl-manifesto-pt.pdf)

[2] Diretrizes da IFLA para Bibliotecas Prisionais (http://www.ifla.org/publications/ifla-professional-reports-92)

[3] Associação de Agências de Bibliotecas Especializadas e Cooperativas – ASCLA (http://www.ala.org/ascla/)

[4] Diretrizes da ALA para Bibliotecas Prisionais (http://www.ala.org/ascla/search/site/prison?f%5B0%5D=hash%3Altox0g)

12 de mar. de 2017

Dia Do Bibliotecário

E você olha a lista dos candidatos classificados e lá está seu nome. Uauuu...Você conseguiu, vai cursar a área que lhe dará o diploma de bibliotecário, afinal, você antes pesquisou o que um profissional da informação faz e decidiu que seguiria por este caminho. Mas você precisa dividir sua alegria com os demais, corre com um sorriso de orelha a orelha para sua mãe e diz:

- Mãeeeeeeeeee, passei! Meu nome está na lista dos aprovados no Sisu.
- Que felicidade, filho! Nem acredito. Vai fazer Medicina é?
- Não, mãe. Farei Biblioteconomia.
- Biblio o quê? Tá, importante é que você vai pra faculdade.

Aí as tias ficam sabendo que você passou, elas sempre sabem de tudo. Ligam sem nem dar um “oi”, e de cara já disparam:

- Orgulho da Titia. Tô muito feliz. Será nosso futuro advogado, né?
- Não, Tia. Eu serei bibliotecário.
- Ah tá... Tipo bancário que mexe com Bíblia né?
- Nossa, Tia! Viajou legal hein... É assim, vou lhe explicar, tá?
(Tu tu tu tu...)
- Tia... Alô, tia? Eita... desligou!

Ah, que se dane a Tia. Vou postar logo nas redes sociais que sou “bixo” em Biblioteconomia. Gente, nem acredito, serei um universitário.

“Fala âehhh galera. Sou o mais novo #Bixo do pedaço. Facul que me aguarde”.

Meia-hora depois você já tem mais de 300 curtidas... O post bombou, afinal, curso superior não é para qualquer um. Até que aquele seu amigo chato resolve perguntar:

- Parabéns, brother! Foi aprovado em qual curso?

Você vai lá e, com o peito estufado, responde:

- Brigadão aí, mano! Vou fazer Biblioteconomia.

Silêncio na rede social. Nenhum like mais. Mas sempre tem um primo inconveniente para ajudar a piorar. Então ele dispara:

- Putz, moleque! Sua nota foi tão ruim assim? Biblioteconomia, véio?

Ninguém quer saber que você passou em primeira chamada ou que sua nota poderia lhe colocar em outro curso. Saco isso! Mas pera aí... Faltou contar para seu pai. Sim, o velho vai gostar, ele é seu grande fã. 

- Pai, seu filho aqui foi aprovado e vai entrar pra faculdade. Serei um futuro bibliotecário. Não é massa, velho?
- O que faz um profissional desses? Tá, não importa. Do que jeito que está nosso Brasil, diploma lhe rende ao menos uma cela especial na cadeia. Engole essa, Eike Batista! 

De cabeça baixa, com a autoestima lá no pé, você vai procurar colo de vó. Conta para ela tudo que aconteceu e eis a surpresa, sua vó conhece tudo de Biblioteconomia.

- Caraca, vó! Que legal! Você manja de Biblio, então? Sabe o que faz um bibliotecário?
- Claro, meu querido. Sempre frequentei muito as bibliotecas, e bibliotecário é aquele que olha bem sério pra sua cara e faz “pssssssiuuuuuu, silêncio”. 

Não tem jeito. Mesmo assim, contra tudo e todos, você vai lá e encara o curso com todo o amor que você tem, afinal, é o seu sonho. Danem-se os outros. E por não ter desistido, você agora pode se orgulhar e dizer:
“Sim, eu sou um bibliotecário e 12 de Março é o meu dia. Parabéns pra mim!”