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Edson Nery da Fonseca - O eterno Mestre

"Eu não tenho sequer pós-graduação, não tenho mestrado, doutorado, tenho apenas um bacharelado em uma ciência que ninguém leva a sério chamada Biblioteconomia."

Biblioteconomia Social

"A interação entre a técnica e o social me fez conceber o que intitulo de Biblioteconomia Social..."

Shiyali Ramamrita Ranganathan

"A informação necessita encontrar todos os leitores e todos os leitores devem encontrar as informações."

Jean Piaget

"O ser humano é ativo na construção de seu conhecimento e não uma massa 'disforme' a ser moldada pelo professor."

Michel Foucault

"A prisão do jeito que é hoje, é inócua porque “se eu traí meu País, sou preso; se matei meu pai, sou preso; todos os delitos imagináveis são punidos de maneira mais uniforme. Tenho a impressão de ver um médico que, para todas as doenças, tem o mesmo remédio. E um remédio que não cura!”.

21 de fev. de 2018

Do lixo ao crime: a história de um ex-presidiário argentino que agora volta para a prisão, mas na condição de professor universitário.




























Um menino de 9 anos caminha apressadamente pelas ruas, com uma mão, empurra um carrinho sujo de bebê, mas dentro não há uma criança, apenas sacos de lixo. Aquele menino cresceu na pobreza dos lixões, alimentando-se de restos, pedindo dinheiro nas esquinas dos semáforos. 
O menino é o Argentino Waldemar Cubilla, hoje homem feito com 35 anos, ele relembra: 

"Subíamos na montanha do lixo para procurar sapatos, descartados de uma fábrica próxima. Eram calçados com defeitos, procuramos um par ou um pé parecido com outro, a gente costurava e calçava na hora. Depois juntávamos papéis, plásticos ou metais para vender, mas também salsichas... Ah, quando encontramos salsichas no lixo, fazíamos a festa, era alimento comemorado.” 

Quando a adolescência chegou, 
"alguns se tornaram especialistas em sobreviver na miséria, outros eram mais covardes e, assim, saímos para roubar. Eu tinha 15 anos quando comecei a sair com uma arma, e se você procurar uma explicação racional, você não possui. 
Eu só dizia para mim mesmo: não mereço viver assim, não quero estar mais na pobreza extrema”. 
Waldemar, no entanto, continuou a ir à escola. 

"Se eu soubesse que eu tinha que ir à escola tal hora, organizava o assalto de antemão para que eu não faltasse. Muitas vezes eu voltava para roubar e retornava para a escola. Se você abrisse minha mochila, encontraria suprimentos, livros e uma arma”. 

Nessa altura da vida, Waldemar já era o fornecedor armas e roubava, em média, três carros por dia. 

Aos 17 anos ele foi preso pela primeira vez e passou algum tempo em uma instituição para menores infratores, destino da maioria daqueles meninos criados no lixo. Em dezembro de 2001, no ápice da crise econômica, a pobreza que ameaçava o povo de "La Cárcova", ele voltou ao crime. Pouco tempo depois estaria preso na prisão de segurança máxima do General Alvear, faltava-lhe um ano para terminar o ensino médio. 

"Passei 4 anos numa cela sem fazer nada". Somente quando foi transferido para Sierra Chica, ele decidiu terminar seus estudos. Mas ele estava a 350 quilômetros de sua casa e não recebeu o certificado para provar que restava apenas o último ano do ensino médio: precisou fazer tudo novamente. Foi neste contexto que ele viu uma cena que o deixou tal como um menino na frente de uma loja de brinquedos: haviam prisioneiros com nível superior, foram eles que lhe emprestaram um livro de Sociologia e desenvolveram nele o gosto pela leitura. 

Aos 23 anos, quando ganhou a liberdade e retornou ao seu povoado, matriculou-se no campus de San Isidro da Universidade de Keneddy para estudar Direito. 

“Eu fiz dois anos de curso. Mas, era uma instituição privada e eu não conseguia pagar mais, então passei a cometer crimes novamente para continuar bancando a faculdade."

Waldemar, então, foi preso novamente, ainda que fosse um dos melhores alunos, com média geral de 8 em todas as disciplinas. De volta a prisão, a ironia fica por conta desta estar localizada justamente em meio aos dois mundos tão familiares de Waldemar: atrás dos muros, a Universidade e o lixão em que ele passou toda a sua infância. Ele relembra:

"Não pude ficar indiferente, ao observar pelas janelas da cela, de um lado os meninos brincando no lixão e no outro o campus universitário . Então enviei uma carta ao reitor da Universidade Nacional de San Martín, muito simples, e lhe disse que havia alguns prisioneiros na republica argentina e que eles tinham direito à Educação. 
E ele me ouviu, assim, em 2008, CUSAM nasceu , que é o projeto de “Universidade dentro da prisão”. 

E foi assim que Waldemar passou a cursar Sociologia, junto de outros prisioneiros e também agentes penitenciários. Em pouco passou a cuidar da Biblioteca Prisional: 

"Eu me tornei bibliotecário da prisão, a biblioteca era um lugar fundamental na minha vida", diz ele. Enquanto estava na prisão, Eros nasceu, seu primeiro filho, que deve seu nome ao que Waldemar sentiu quando leu o "Banquete" de Platão. Depois ele teve outro filho - "Jano", um nome que apareceu lendo "The look of Janus", um pensador alemão. Ainda na prisão, Wlademar formou-se em Sociologia com a nota mais alta dos alunos, inclusive dos colegas do campus universitário, pessoas que jamais estiverem numa prisão. Hoje Waldemar faz doutorado em Sociologia. 

A primeira coisa que ele fez, dois meses depois de ter recuperado a liberdade, foi montar uma biblioteca fora da prisão e definir uma meta: 

" Que nenhum de nós caia na armadilha do crime" . 

Ele fez tudo em parceria com Checho, um jovem que chegou à prisão enquanto Waldemar era bibliotecário do cárcere. 


"Ele chegou morto, à beira da morte, buscou na leitura dentro da biblioteca prisional e nos estudos uma inspiração para seguir vivendo. A biblioteca serve como reflexão sobre essas coisas".

A biblioteca do lixão foi montada em janeiro de 2012, depois de Waldemar ter passado 9 anos na prisão. Localizada na entrada da cidade, a biblioteca comunitária recebeu o nome de "La Carcova". DETALHE: a biblioteca foi é construída sob o lixo empilhado no local de sua infância, espaço em que muitos outros pequenos habitam, passando pelo mesmo dilema que ele viveu um dia. 


"A biblioteca tornou-se uma esperança, não é mais um espaço literário no meio do caminho, mas sim a esperança de quem deseja mudar sua vida por meio da Educação."


Waldemar lembra que um lema dos presos, ao ganharem a liberdade, consiste em não olhar para trás. Não por medo de se tornarem uma estátua de sal, mas não para retornar. Este ano, no entanto, ele olhará para trás e voltará para a prisão. Desta vez sem algemas ou sob custódia, mas na condição de "professor de Sociologia para os condenados na prisão . "

Fonte Original: infobae.com




16 de dez. de 2017

Biblioteca Prisional é inaugurada em Cajazeiras - PB


Biblioteca Prisional - Sobre a inauguração da Biblioteca no Presídio Padrão de Cajazeiras, Paraíba: Várias pessoas vieram falar comigo em alusão a esta unidade de informação implantada no cárcere, localizada no sertão da PB.

No entanto, por mais que eu lute arduamente para que as Bibliotecas Prisionais possam de fato ser realidade na rotina intramuros prisionais, ainda que eu comemore cada noticia em que os livros atrás das grades deixam de ser raridade e passam a ser alternativa de remição de pena, não posso compactuar jamais com a conotação de "assistencialismo" quando fazem alusão a uma Biblioteca Prisional sob alegação, do tipo: 

"Ah, foi uma ótima ideia"; 
"Qualquer apenado vai poder ter acesso a biblioteca"... 

Existe uma coisa chamada "direito" e isso não está sob concessão que alguém tem que dar, mas sim dentro daquilo que ninguém - em tese - pode tirar, ou seja, os presos não só podem como devem ser presença na biblioteca. Sem contar que "Biblioteca Prisional não é ideia", mas prerrogativa legal. 

Por fim, não consigo conceber que uma "Gerente Regional de Educação" afirme que o "preso está fora da sociedade". Como assim? Não, o apenado está em verdade privado da liberdade, mas jamais deixou de fazer parte da sociedade, ainda que finjam não vê-los como tal. Por isso sou contra o termo "ressocialização". Aliás, os altos muros prisionais, como já bem disse Foucault, não foram feitos exatamente para assegurar que o preso não fuja e sim para que a sociedade não os veja nem de longe, assim fica mais fácil fazer de conta que eles não existem. 

Em suma, fico feliz por cada Biblioteca Prisional inaugurada, compreendida que ela é o verdadeiro laboratório para a Educação no cárcere, bem como a eficácia da remição de pena por meio da leitura. Mas que ela não seja tomada como "boa ação" e sim como aplicação da lei. Ponto! 

Fonte do Vídeo: TV Sertão da Paraíba

4 de dez. de 2017

Desabafo do familiar de um preso sobre o "Bandido Bom é Bandido Morto"

O senso comum tornou-se o maior entendedor do “Sistema Prisional Brasileiro”, conjecturam como se tivessem propriedade de fala e consistência verídica nas fundamentações. No entanto, os mesmos que apregoam que “Bandido Bom é Bandido Morto”, jamais colocaram seus pés numa instituição penal ou tão pouco buscaram informações verídicas sobre como de fato e verdade funcionam e são as prisões brasileiras. A pergunta que a sociedade deveria fazer-se é simples: “Como desejamos que os egressos do sistema penal retornem da restrição de liberdade?” Afinal, se a intenção do cárcere é punir e reeducar, como explicar a grande reincidência? Resposta óbvia: o sistema apenas pune! 

Ao contrário do que dizem os “entendedores de bandidos”, a criminalidade não se resolve tão somente prendendo um individuo , abarrotando os muros prisionais ou mesmo “matando”, pois enquanto o senso comum comemora a prisão do “chefe da boca tal” ou o “líder da quadrilha X”, os grandes fomentadores da criminalidade seguem soltos, sentados nas cadeiras do poder, não fazem uso de armas, mas de canetas e amigos “influenciáveis”, que os mantem livres e agindo como verdadeiros “tubarões” do crime organizado, enquanto o tal senso comum celebra a prisão dos “peixinhos”. 

Sigo bradando: Criminalidade, na raiz do problema, se combate com Educação. Ponto! Agora, para fazer isso, é preciso limpar o país e a sujeira não está no cárcere, mas nos bastidores do poder politico do nosso país. 

Os deixo com o desabafo de um familiar de preso do Estado do Rio de Janeiro, que por uma questão de ética, não será citado o nome. Palavras contextualizadas na integra por quem conhece e convive com a situação prisional na condição direta de família de apenado.


Aqui vai um grande DESABAFO! 

Sabe tô cansada de ouvir ou ler post de pessoa dizendo que Bandido bom e bandido morto, que pelo menos morto não darão gasto ao Governo! 

Primeiramente o Sistema Prisional Brasileiro é medieval, não evoluiu em nada desde a década de 70 e 80, que é quando foi construído , há muitos presídios que foram construídos há mais de 40 anos e nem reforma tiveram, abrigam entorno de 5 vezes a mais que a capacidade limite deles! 

Se forem pesquisar, dizem que um DETENTO dá o gasto de quase R$ 2.000,00 ao Governo !!! Agora a você que reclama disso, QUE FALA MAL E HUMILHA ATÉ OS FAMILIARES e nunca entrou em uma penitenciaria e com certeza não foi atrás de informação! E Pura MENTIRAAAAAAA, Presidio hoje é maquina de lavar dinheiro para ladrão de Terno e Gravata... PRESIDIO é um deposito de pessoas, preso não tem acesso a educação, há cultura nem a saúde! 

A partir do momento que se cai preso já não existe nenhum direito garantido! Higiene lá dentro por parte do governo que DIZ que mantem não existe. Alimentação é péssima, quase todos os dias blindada, marmita ou xepa e entregue azeda, a garantia de saúde não existe, remédio que em pautas dizem que gastam tanto também não há ! Se você não tiver família, você passa fome, quem banca o detento lá dentro é a família! Todo Material de Higiene, toda alimentação, todo remédio, vestimenta ou aquilo que o governo se gaba dizendo que da é mentira! Se não for a gente que esta aqui fora, o preso morre lá! 

Então você que critica , saiba que você está sustentando ladrão sim, mas lá no Senado, lá em Brasília! Porque no presidio quem sustenta e a família...
(Familiar de preso/RJ) 

27 de nov. de 2017

Educação No Cárcere: apenada vence concurso de redação no Piauí

“Me senti desafiada, porque achava que não conseguiria escrever uma redação com esse tema”

diz Fernanda Lima, reeducanda da Penitenciária Feminina de Teresina que venceu a terceira edição do concurso de redação promovido pela Defensoria Pública da União (DPU), que teve como tema “Menos grades e Mais Direitos”. 

O concurso era exclusivo para alunos matriculados na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do ensino regular, mas, neste ano, incluiu pessoas privadas de liberdade nas penitenciárias do país. Além de incentivar a leitura e escrita, o concurso é uma oportunidade de mostrar os conhecimentos adquiridos no campo educacional. 

“Quase não acreditei no resultado. Foi muito desafiador fazer uma redação com esse tema, porque, se eu estivesse lá fora, não saberia como escrever. E, aqui no presídio, eu tive a responsabilidade de escrever sobre o que eu e minhas colegas de cela passam e precisam”. - Fernanda Lima - apenada. 

O concurso teve 6.607 redações inscritas, das quais 5.044 foram de reeducandos do sistema prisional. O Piauí inscreveu 20 detentos – sendo 15 da Penitenciária Feminina de Teresina e 5 da Colônia Agrícola Penal Major César. Fernanda está presa há quatro meses e participa de projetos de ressocialização realizados na unidade. Os classificados em primeiro lugar no concurso de redação ganharão um tablet – o prêmio será entregue no dia em que deixarem a prisão – e as respectivas unidades prisionais receberão uma premiação no valor de R$ 10 mil, para serem aplicados em equipamentos e projetos que contribuam para a educação dos detentos. 

Na Penitenciária Feminina, Fernanda Lima participa do programa Mulheres Mil – desenvolvido pelas
secretarias de Estado da Educação e de Justiça e que visa à capacitação profissional de detentas – e está no preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Quero fazer Enfermagem”, conta. 


A coordenadora de Ensino Prisional, Jussyara Valente, destaca que “vimos que concorrer a esse prêmio seria uma oportunidade de mostrar os conhecimentos adquiridos pelos reeducandos em sala de aula, além de ser uma forma de motivar e mostrar a importância da educação na humanização do sistema prisional”. 

Na visão da secretária de Educação, Rejane Dias, o Piauí vive um processo de valorização das mulheres e que “o esforço do Governo do Estado é qualificar as reeducandas do sistema prisional, com cursos profissionalizantes, educação básica e dando suporte para que ingressem no ensino superior”.  O secretário de Justiça, Daniel Oliveira, observa que os investimentos em educação no sistema prisional têm proporcionado resultados relevantes. De acordo com a Secretaria de Justiça, pelo menos 36% de detentos estudam, hoje, nos presídios, e houve um crescimento de 292% no número de presos estudando, nos últimos três anos.

“Acreditamos que a educação é capaz de mudar a realidade dessas pessoas, afastando-as da criminalidade e colocando-as no caminho da cidadania. Portanto, nosso intuito é oferecer oportunidades de ensino, trabalho e assegurar direitos, para que elas possam, de fato, mudar de vida”. Daniel Oliveira - Secretário de Justiça


Fonte: Secretaria de Justiça do Piauí

7 de nov. de 2017

Depoimento: A rotina de um bibliotecário prisional americano

Por Andrew Hart, Ohio (EUA)

Andrew Hart, Bibliotecário
Quando alguém menciona algo relacionado a uma biblioteca da prisão, alguns podem imaginar uma sala pequena e escura dentro das entranhas do cárcere e ter até a visão de um bibliotecário cansado, trabalhando entre material antigo e desatualizado, apenados que se arrastam entre as obras das estantes, guardas que alertam para qualquer sinal de problema. Pelo menos, foi assim que imaginei uma biblioteca prisional. Mas isso foi antes de trabalhar em uma por dois anos.

Eu diria a qualquer um que ser bibliotecário da prisão é a atuação de bibliotecário mais difícil, mais gratificante, mais triste, mais feliz, desafiadora, visionária, frustrante e interessante. Eu diria a mim mesmo: "Se você pode sobreviver a esta biblioteca, você pode sobreviver a qualquer biblioteca". As bibliotecas prisionais vêm com uma parcela apertada de desafios, mas, por outro lado, apresentam oportunidades que não são encontradas em nenhum outro lugar na profissão de bibliotecário. A missão de uma biblioteca da prisão é fornecer recursos educacionais e recreativos aos presos. Isso pode assumir a forma de livros, jornais, revistas, filmes e programação de bibliotecas. A esperança é que isso ajude no processo de reabilitação e, o mais importante, fornecer um meio de subterfúgio e distração para que os internos permaneçam sem problemas. Cabeça vazia e mãos soltas é oficina do diabo na prisão.

Um dia normal na biblioteca prisional consistia nos seguintes afazeres: abrir e fechar a biblioteca várias vezes durante o dia enquanto supervisionava cerca de quinze apenados trabalhadores da biblioteca; pedidos, recebimentos e inventários; respondendo cartas dos presos à biblioteca; segregação de visitas; encomendas de periódicos e livros de direito; selecionar doações de livros; esvaziar caixas de empréstimos de livros; responder perguntas de referência; prestação de relatórios; solução de problemas de TI; criação de programação mensal e etc. Como vocês podem ver, esta é uma agenda bastante atribulada e é típica para a maioria dos bibliotecários prisionais. 

Talvez um dos maiores obstáculos para um bibliotecário prisional seja a verba pública para a mesma. Na maioria das vezes, a biblioteca da prisão não faz parte das prioridades governamentais e é negligenciada. As doações de livros são a alma de uma biblioteca prisional. Uma parceria com editoras é uma ótima maneira para uma biblioteca prisional obter livros e substituir o material desatualizado que obstrua as prateleiras. Quando recebia delas as doações de livros, era como manhã de Natal na biblioteca. Os presos apreciavam meus esforços na tentativa de fornecer material novo e a administração prisional gostava das doações porque economizavam dinheiro. Manter obras atuais e novas melhora a imagem da biblioteca para os presos e a torna convidativa.

Na prisão há um lema: "A segurança é priori." Antes de trabalhar em uma, eu tive que me capacitar em como lidar com situações e pessoas dentro do contexto de segurança prisional. O aspecto mais dramático do meu trabalho foi monitorar os internos que visitavam a biblioteca e, ao mesmo tempo, responder perguntas de referência, realizar pesquisas legais e auxiliar os clientes (eu sempre me referi aos internos como clientes quando na biblioteca da prisão). Aprendi a olhar os dois lados ao mesmo tempo e a ser observador de tudo em minha volta. De vez em quando eu parava um agente penitenciário e pedia explicações sobre como identificar uma pessoa suspeita, por exemplo. Em certas ocasiões eu tinha que levantar a voz e outras eu tive que esvaziar toda a biblioteca devido ao mau comportamento.

As oportunidades criativas são abundantes em uma biblioteca da prisão. Workshops, clubes de livros e projetos de serviços comunitários são bem-vindos e necessários. Uma das melhores coisas sobre o meu trabalho foi o prazer imediato que experimentei quando ajudei um preso a encontrar as informações de que precisava ou quando os internos se aproximaram de um workshop e me diziam ter aprendido algo novo naquele dia. Fornecer serviços educacionais, criativos e significativos é primordial. Meu objetivo era encontrar soluções baratas, que incluíam a criação de slideshows e folhetos sobre uma variedade de tópicos, incluindo genealogia, direitos autorais / escrita e astrobiologia - uma recente área de pesquisa científica que busca compreender a origem, evolução, futuro e distribuição da vida na Terra e no Universo (o meu favorito). Eu também supervisionei um programa de serviço comunitário em que os internos receberam certificados para escreverem cartas de encorajamento aos soldados na guerra. 

Os serviços oferecidos pela biblioteca da prisão podem parecer insignificantes, no entanto, em sua maior parte, os internos buscam frequentar a biblioteca na intenção de sair de suas celas e experimentar mudanças na paisagem local. A biblioteca fornece um espaço de encontro para os presos conversarem e conhecerem aqueles que compartilham de interesses comuns. Não era raro que os apenados me explicassem suas histórias de vida; como chegaram à sua situação atual e suas esperanças para o futuro. Naqueles tempos, eu oferecia dicas de livros que correspondiam à sua situação e circunstâncias da vida.

Durante os deveres diários de um bibliotecário prisional, está a seleção de obras para empréstimos aos presos, contudo, vários títulos não são permitidos por uma questão de política institucional. A censura é uma dura realidade para os bibliotecários prisionais e contra a própria ética da nossa profissão. No entanto, a segurança é primordial e, na prisão, alguns direitos foram despojados, incluindo o direito a determinadas obras. 

Se você tem interesse em alguma parceria com a biblioteca prisional de sua cidade, não tenha medo de buscar isso e oferecer assistência. Acreditem em mim, os bibliotecários da prisão recebem toda e qualquer ajuda que possam obter. As bibliotecas prisionais não são masmorras como eu descrevi no início do artigo, mas lugares de aprendizagem, recreação e reabilitação. Um livro pode literalmente mudar uma vida na prisão, eu já constatei isso! Considere a parceria com o sistema prisional do seu estado e ajude a mudar o mundo aqui fora mudando vidas lá dentro.

Aqui estão algumas observações  feitas na biblioteca prisional: 

Autores populares: James Patterson, Louis L'Amour, Patricia Cornwell, JK Rowling, David Baldacci, William Johnstone, Jim Butcher, Stephen King, Dan Brown, Dean Koontz.

Tópicos Populares: Qualquer coisa do Naruto, administração de empresas, autoajuda, cozinha, crochê, línguas, super-heróis.

Pergunta mais comum: "Você pode me ajudar a obter uma estratégia de negócios?"

Pergunta de referência mais inusitada: "Qual é o tempo de gestação para um ratinho de estimação?"

Momento favorito: a hora de recitar poesia na biblioteca.

Pedido de obra mais estranha: um livro sobre agricultura de enguias.

Inesperado: Os presos roubando canetas, embora estivessem amarradas à mesa. 







23 de out. de 2017

Ex-presidiário ministra palestra ao lado de professor universitário no maior e mais importante congresso da área de Biblioteconomia

Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação – Itamar chega nervoso, pergunta se pode mesmo falar sobre sua história, da trajetória que o levou do submundo criminoso às salas de aula na condição de professor. Eu apenas disse a ele: “Seja você mesmo, esqueça a cientificidade e mostre que os livros atrás das grades podem sim fazer a diferença”

Itamar Xavier de Camargo
Ele começou sua fala e eu assumo, chorei copiosamente, afinal, em cada descrição de sua história, vinha à mente os tantos “Itamares” que temos nas prisões brasileiras, impossível não lembrar o meu trabalho a frente da biblioteca prisional e naquele palco pensar: “Sim, chegamos ao principal evento da Biblioteconomia, dos bibliotecários e das bibliotecas. Já não somos invisíveis ou negligenciados”.

O Itamar Xavier de Camargo dedica sua vida a fazer com que as pessoas tenham acesso à cultura, arte e informação. Ele, melhor do que ninguém sabe da importância que isso tem na vida de cada um, pois trilhou um árduo caminho, da infância pobre na periferia de São Paulo, passando pela violência, crime e depois o cárcere, até se tornar um semeador de livros e formar bibliotecas comunitárias em áreas carentes de Presidente Prudente. Sua trajetória de vida é um exemplo do poder de transformação pelo conhecimento e da determinação de um homem e sua luta na busca de sair de uma situação sem qualquer perspectiva de futuro. Quer saber mais sobre o Itamar? Leia seu livro “A Verdade que Liberta”


Professor Jonathas Carvalho
Logo após a emocionada fala de Itamar, tivemos o professor Jonathas Carvalho, do curso de biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Mestre e Doutor em Ciência da Informação que há anos vem debatendo a questão da importância das Bibliotecas Prisionais e buscando inseri-las também dentro da formação do futuro bibliotecário. De acordo com o professor Jonathas:

“Mais do que uma ampliação de mercado, o reconhecimento da atuação pedagógica da Biblioteconomia em presídios é uma expressão altiva e ativa do trabalho social da área do conhecimento em questão”. 
Leia na íntegra um artigo completo do professor sobre o tema. 

Jonathas encerra sua palestra chamando a academia de Biblioteconomia para o engajamento desta pauta, ressaltando que as Bibliotecas Prisionais são tão bibliotecas quanto as bibliotecas escolares ou universitárias, por exemplo. Bem, pessoalmente sou suspeita para falar deste Mestre, uma vez usei inúmeras falas dele em vários de meus projetos de Biblioteconomia Social e em especial nas bibliotecas prisionais. Tê-lo junto do Itamar, criador e criação, foi realmente emoção que palavras não descrevem. 

Workshop

Workshop
Num segundo momento, aconteceu outra reflexão sobre o assunto, com a presença do Itamar e da Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), dentro do “Workshop” que discutia o papel das Bibliotecas Prisionais: utopia ou realidade dentro do cenário brasileiro? 

Com a participação de bibliotecários, professores e estudantes de Biblioteconomia. Deparamo-nos com relatos maravilhosos de pessoas engajadas em projetos dentro do sistema penal, bibliotecas e pesquisas, além da participação de profissionais de outras áreas, como foi o caso dos Assistentes Sociais e Pedagogos. Sabemos que não é utopia, no entanto, ainda longe de ser uma realidade nacional. 

Cleide Fernandes (SNBP/MG); Catia Lindemann (Presidente da CBBP);
Guilherme Relvas (DLLLB); Renata Costa (SNBP/RJ)
Assim, aos poucos, vamos ganhando força e formando parcerias para que, de fato, as unidades de informação no cárcere possam ser aplicabilidade e não tão somente lei no papel. Para tal, ainda no CBBD, realizamos diálogo e obtivemos o apoio do atual Diretor do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) do Ministério da Cultura (MinC), Guilherme Relvas. Do mesmo modo aconteceu com o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Rio de Janeiro, sob coordenação de Renata Costa, que já efetua projetos de remição da pena por meio da leitura nas penitenciárias do Estado do Rio e atua diretamente na supervisão das bibliotecas prisionais do RJ. Por fim e não menos valiosa, obtivemos outra ponte, desta vez no Estado de Minas Gerais. Trata-se da bibliotecária Cleide Fernandes, diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais de MG.

Foi assim que as bibliotecas prisionais  ganharam espaço neste que é o principal evento da área de Biblioteconomia. Pela primeira vez na história, em décadas de realização, tivemos os livros na rotina intramuros das prisões como pauta de discussão. Em suma, comprovamos que 2017 foi literalmente o ano de “renascimento” das Bibliotecas Prisionais. Digo renascer porque em verdade elas já completaram 33 anos, mas apenas agora se tornaram visíveis e foco de atenção, tanto da academia quanto da sociedade – neste caso de modo mais módico e discreto. Mas seguimos nossa luta pelas Bibliotecas Prisionais, agora mais
fortalecidos, bradando que as mesmas não são assistencialismo, mas prerrogativa prevista em lei.

Carlos Wellington (CBBP/MA); Adriana Ferrari (Presidente da FEBAB);
Catia Lindemann (CBBP/RS)
Fica nossa gratidão a  Adriana Ferrari, presidente da Federação Brasileira das Associações de Bibliotecários (FEBAB), entidade que além de ser a responsável pelo CBBD, também montou a primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), oportunizando representatividade para que estas pudessem verdadeiramente ter voz e inserção dentro da área de Biblioteconomia e no país como um todo. Agora é respirar e seguir em frente porque a luta continua. Inspiremo-nos!

13 de out. de 2017

Redução de Pena por Meio da Leitura e o Ensino Superior abrem nova perspectiva dentro do Sistema Prisional



             Projeto de educação transforma vida de reeducandos em Alagoas
FOTO: JORGE SANTOS/ASCOM

Quando eu vim preso, perdi tudo. Eu pensava só em como iria recomeçar, não tinha em mente como faria isso. A maneira que eu achei foi por meio da educação, porque quando a gente começa a estudar, começa a focar em algo, as ideias vão fluindo, vão vindo projetos e tudo mais, e você vai tendo uma visão do que vai fazer quando sair", conta o reeducando Cícero Júnior, de 34 anos.


Condenado por roubo a 20 anos de prisão, hoje Cícero é estudante do sexto período de administração. Aprendeu com os erros que cometeu e já faz planos ousados para mudar a sua história, pelas mãos da educação.


"Fui envolvido num assalto que aconteceu em 2009 e terminei parando aqui no sistema prisional por conhecer pessoas erradas. É como eu sempre digo, errar é humano, o errado é continuar no erro, nunca é tarde para recomeçar. Então hoje eu pretendo terminar minha faculdade, fazer meu mestrado e se Deus permitir chegar a meu doutorado".

Cícero Junior é só um dos exemplos de reeducandos do sistema prisional alagoano que estão tendo a oportunidade de escrever uma nova história. Como ele, outros 12 detentos cursam o ensino superior dentro do sistema, divididos entre os cursos de administração, geografia, história, educação física, análise e desenvolvimento de sistemas e gestão de recursos humanos.


Realidade de reeducandos de Alagoas está sendo transformada
FOTO: JORGE SANTOS/ASCOM
Os cursos são 100% online e acontecem na sala de informática do Núcleo Ressocializador da Capital, com acesso nos horários programados e mais uma hora disponibilizada no horário noturno para estudos na biblioteca da unidade. A iniciativa partiu dos próprios reeducandos e de gestores do núcleo, que solicitaram à Vara de Execuções Penais de Alagoas autorização para que os detentos participassem do vestibular da Universidade do Norte do Paraná - Unopar. O projeto deu certo e desde então o número de presos interessados em cursar faculdade tem crescido a cada ano.

A mensalidade dos cursos é paga pelos próprios detentos com a remuneração que eles recebem pelo trabalho desempenhado dentro do sistema. O número de estudantes do ensino superior só não é maior justamente porque alguns ainda não têm condições de pagar essa mensalidade, por isso, o estado tem buscado parcerias para ampliar as oportunidades, como nos explica o chefe do Núcleo de Ressocialização, Élder Rodrigues.

Secretário Marcos Sérgio fala sobre a parceria com instituições de ensino superior
FOTO: ASCOM

"Nossa meta é tentar chegar a 30 universitários até o final do ano, hoje temos 13 e mais 20 que concluíram o ensino médio, mas infelizmente não têm condições de pagar uma universidade. Por isso estamos indo agora buscar parcerias. Fomos contemplados pelo Senai, com cursos de iniciação profissionalizante e cursos técnicos. Estamos também fechando com o Senac. Se conseguirmos, teremos não só curso superior, mas também pós-graduação e cursos técnicos", diz o gestor.

A oferta de educação formal no sistema prisional alagoano teve início em 2011, impulsionada por alterações na Lei de Execuções Penais (LEP). Nesse período, inúmeras transformações ocorreram e o acesso ao conhecimento através da educação tem sido uma ferramenta fundamental para mudar a vida dos reeducandos.

Como a de Jadielson Barbosa da Silva, de 46 anos. Envolvido em um homicídio nos anos 90, Jadielson foi condenado a 105 anos de prisão. Chegou a ser solto em 2001, mas voltou ao presídio após ser julgado em definitivo em 2012. Durante esses anos, foi gerente de uma rede de açougues em São Paulo e por isso escolheu o curso de administração. Ele espera por recursos que estão em andamento na justiça e se um dia voltar à sociedade, quer buscar novamente seu espaço no mercado de trabalho.

"Como eu já era dessa área de administração, foquei nela para quando eu sair, se demorar ou não, quando eu tiver com o diploma eu já terei um espaço maior para trabalho. Se o espaço já é restrito para pessoas normais, para o egresso é ainda mais. Quando eu sair, quero continuar tomando conta da família, como vinha desde 2001, agora com diploma e uma vivência muito maior, pois quando você entra no sistema prisional você não sai a mesma pessoa".


Atualmente, o Sistema Penitenciário de Alagoas possui mais de 1.100 vagas para a assistência educacional, divididas entre educação básica, ensino superior, qualificação profissional e preparação para o mercado de trabalho, além de atividades complementares. A busca agora é aumentar ainda mais esses números, como nos fala o secretário de Ressocialização e Inclusão Social, Marcos Sérgio Freitas, que destaca o papel da academia nesse trabalho.

"A gente está aumentando esse número trazendo a academia para o sistema prisional. As academias, como parte da sociedade, tinham também um pouco de preconceito, mas a gente está trazendo a Universidade Federal de Alagoas, a Unopar, o Cesmac, dentre outras. A gente tem essa participação tanto das academias privadas, quanto as públicas, trazendo essa diretiva. Assim como o trabalho, é uma conquista muito grande", comemora o secretário.


Outro exemplo de boa iniciativa é o projeto Lêberdade, um programa que incentiva a leitura, interpretação e construção de textos nos presídios. Como consequência, a ação amplia a educação e cultura dos internos que têm ainda suas penas remidas atendendo aos requisitos do projeto. A iniciativa deu tão certo que está concorrendo ao prêmio anual do Concurso Ações Inovadoras, promovido pela Secretaria do Planejamento, Gestão e Patrimônio do Estado, e tem ajudado ainda a melhorar também os índices de saúde mental dentro do sistema, como nos explica a gerente de educação, produção e laborterapia da Seris, Andrea Rodrigues.

"Esse projeto realmente é bastante promissor, porque ele alcança o maior número de pessoas, uma vez que o livro vai até as pessoas. Durante o período de leitura, o reeducando fica com o livro na cela e aí a gente tem uma oficina que ensina a fazer a resenha ou o relatório, dentro do nível de escolaridade", explica. "


Presos lendo na Biblioteca (Fotos: Jorge Santos)
Está sendo um sucesso. A gente estava com histórico de tentativa de suicídio muito grande e percebemos que depois de começar o projeto essa incidência diminuiu. O Lêberdade tem proporcionado essa liberdade mental", celebra a gerente. Infelizmente, as boas ações ainda esbarram na falta de recursos humanos. A carência de agentes penitenciários atrapalha o desenvolvimento de projetos como o Lêberdade e a oferta da educação dentro do sistema prisional, mas isso é assunto para a próxima reportagem, onde também conheceremos o modelo de unidade prisional que serve de exemplo em todo o Brasil e está inserido no sistema prisional de Alagoas, o Núcleo Ressocializador da Capital, centro da maioria das boas iniciativas apresentadas ao longo desta série de reportagens.

Fonte:  Eduardo Vieira e Adelaide Nogueira - Rádio Gazeta